Artigo original:
Endometriosis: new insights and opportunities for relief of symptoms
Autores e referência: Philippa T.K. Saunders e Andrew W. Horne
Ano: 2025
DOI: https://doi.org/10.1093/biolre/ioaf164
Tema clínico principal: Endometriose como uma desordem neuroinflamatória multissistêmica, com foco em novas estratégias terapêuticas para alívio dos sintomas.
Comentado por: Dra. Graciela Morgado
CRM/SP 122.379 | RQE 540631 | RQE 540632
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1. Resumo Científico Objetivo
A endometriose é uma condição crônica com impacto negativo significativo na qualidade de vida e fertilidade de mais de 190 milhões de mulheres. O artigo revisa novas abordagens clínicas e terapêuticas baseadas em avanços genéticos, metabólicos e neuroinflamatórios.

2. Fisiopatologia detalhada
A endometriose é descrita no artigo como uma condição neuroinflamatória multissistêmica. A fisiopatologia envolve diversos eventos locais e sistêmicos que ajudam a explicar a variabilidade dos sintomas, especialmente dor crônica e infertilidade.
Principais eventos fisiopatológicos:
- Lesões endometrióticas: São compostas por células estromais e epiteliais semelhantes ao endométrio, além de células imunes, vasos e fibras nervosas. As lesões podem ser superficiais peritoneais (SPE), ovarianas (endometriomas/OE) ou profundas (DE), muitas vezes coexistindo em uma mesma paciente.
- Inflamação local: Há aumento de citocinas inflamatórias no líquido peritoneal como IL-1β, TNF-α e PGE2, resultando em ativação imunológica intensa. Isso leva à recrutamento de macrófagos e neutrófilos, que favorecem a manutenção e progressão das lesões.
- Angiogênese e neuroangiogênese: As lesões formam novos vasos sanguíneos e fibras nervosas periféricas, um processo chamado de neuroangiogênese. Essa inervação promove hiperalgesia e ligação direta com centros nervosos, alimentando os mecanismos centrais de dor.
- Dor crônica: Envolve mecanismos periféricos (nociceptivos e neuropáticos) e centrais (nociplásticos). A dor é potencializada por:
- Hipersensibilidade do sistema nervoso central (ex: insula, tálamo, córtex somatossensorial)
- Sensibilização periférica
- Lesões de nervos durante intervenções cirúrgicas
- Ativação de vias inflamatórias neuronais
- Multissistemicidade: A endometriose impacta também trato gastrointestinal, urinário e sistema nervoso. Há associação com doenças como fibromialgia, síndrome da bexiga dolorosa, síndrome do intestino irritável e depressão — sustentando o conceito de que não é apenas uma doença ginecológica.

3. Mecanismos moleculares envolvidos
O artigo apresenta avanços recentes na compreensão molecular da endometriose, abordando caminhos genéticos, inflamatórios, imunológicos, metabólicos e epigenéticos:
🔬 Genética e risco
- Estudos de associação genômica (GWAS) identificaram mais de 40 variantes genéticas associadas à endometriose.
- Essas variantes se relacionam com genes envolvidos em:
- Regulação hormonal (FSH, estrogênio)
- Inflamação e imunidade (ex: IL-1, TNF-α, macrófagos)
- Vias de sinalização como Wnt
- Coagulação e remodelamento tecidual
- Algumas dessas alterações também aparecem em doenças comórbidas como asma, depressão, enxaqueca, doenças inflamatórias intestinais e osteoartrite.
🧬 Alterações no endométrio eutópico (dentro do útero)
- Expressão gênica alterada
- Alteração na resposta aos esteroides sexuais
- Disfunção na sinalização da progesterona
- Epigenética: alterações na metilação de genes reguladores do tecido
- Alteração na expressão de microRNAs e liberação de células-tronco
🧪 Ambiente lesional e fluido peritoneal
- As lesões apresentam ambiente esteroidal local alterado, com enzimas como AKR1C3 e mPGES1 mais ativas, aumentando a produção de prostaglandinas inflamatórias.
- Expressão aumentada de canais iônicos (TRPV1, TRPA1), associados à dor.
- Alterações metabólicas: acúmulo de lactato (efeito Warburg), ativação de vias glicolíticas.
- Macrófagos são destacados como protagonistas tanto na dor quanto na manutenção da inflamação.
💊 Implicações clínicas
Essas descobertas estão informando o desenvolvimento de novas terapias direcionadas, como:
- Inibidores de enzimas inflamatórias
- Terapias não hormonais baseadas em metabolismo
- Anticorpos monoclonais contra IL-8
4. Análise Comentário Clínico da Dra. Graciela
Este artigo é um verdadeiro compêndio atualizado sobre a endometriose, reforçando a necessidade de uma abordagem multidisciplinar centrada na paciente. A integração entre terapias hormonais, estratégias de medicina personalizada e intervenções não farmacológicas deve ser considerada na prática clínica. A evidência genética abre portas para o reposicionamento de fármacos e maior entendimento da interrelação com outras comorbidades.

5. Reflexão para o leitor
Como você, clínico, tem abordado a dor pélvica crônica em suas pacientes com endometriose? Tem considerado os aspectos neuroinflamatórios, a presença de comorbidades ou o impacto psicossocial da doença em suas decisões terapêuticas?
6. Aplicações Práticas
- A dor pélvica crônica deve ser abordada como dor nociplástica, além da nociceptiva.
- Estratégias como fisioterapia, mindfulness, dietas anti-inflamatórias (ex: low-FODMAP), cannabis medicinal e VR (realidade virtual) mostram-se promissoras.
- Biomarcadores salivar e fecal ainda estão em investigação, mas representam futuro diagnóstico não invasivo.
7. Intervenções Integrativas Complementares
- Dieta anti-inflamatória e suplementação (quercetina, magnésio)
- Acupuntura, yoga e terapia cognitivo-comportamental demonstram impacto positivo em dor e qualidade de vida
- Apps e realidade virtual como ferramentas emergentes de autogerenciamento
8. Referência Completa
Saunders PTK, Horne AW. Endometriosis: new insights and opportunities for relief of symptoms. Biology of Reproduction, 2025;113(5):1029–1043. https://doi.org/10.1093/biolre/ioaf164
Neri, L.C.L.; Quintiero, F.; Fiorini, S.; Guglielmetti, M.; Ferraro, O.E.; Tagliabue, A.; Gardella, B.; Ferraris, C. Diet and Endometriosis: An Umbrella Review. Foods 2025, 14, 2087. https://doi.org/10.3390/foods14122087
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