Artigo original:
Metabolic Reprogramming in Endometriosis: Mechanisms and Therapeutic Prospects
Autores e referência: Guo C, Na X, Guo Z, Jiao J, Yang M, Liang J, Dai W, Na Z, Jiang Z, Li Y, Li D.
Ano: 2026
DOI: 10.1016/j.jare.2026.04.069
Tema clínico principal: A reprogramação metabólica como mecanismo central da progressão da endometriose, infertilidade associada e novas perspectivas terapêuticas.
Comentado por: Dra. Graciela Morgado
CRM/SP 122.379 | RQE 540631 | RQE 540632
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1. Resumo Científico Objetivo
A endometriose deixa de ser compreendida apenas como uma doença inflamatória e hormonal para ser reconhecida como uma condição de profunda reprogramação metabólica celular.
As células endometrióticas ectópicas passam a utilizar mecanismos semelhantes aos observados em células tumorais, caracterizados por:
• aumento da glicólise aeróbica (efeito Warburg)
• acúmulo de lactato
• alterações no metabolismo lipídico
• remodelação do metabolismo dos aminoácidos
• adaptação à hipóxia, inflamação e estresse oxidativo
Essas alterações permitem maior sobrevivência celular, invasão tecidual, angiogênese, escape imunológico e perpetuação das lesões.
Além disso, o artigo demonstra que a reprogramação metabólica das células da granulosa ovariana contribui diretamente para a piora da qualidade ovocitária e infertilidade associada à endometriose.
2. Fisiopatologia detalhada
O ambiente peritoneal da paciente com endometriose apresenta:
✔ hipóxia crônica
✔ excesso de ferro decorrente do sangramento repetitivo das lesões
✔ inflamação persistente
✔ aumento de espécies reativas de oxigênio (ROS)
Diante desse cenário hostil, as células ectópicas desenvolvem adaptações metabólicas para sobreviver.
As principais alterações identificadas foram:
Metabolismo da glicose
- aumento da expressão de GLUT-1 e GLUT-4
- aumento da captação de glicose
- ativação de HK2, PFKFB3, PFKFB4 e PKM2
- aumento da produção de lactato
Resultado:
→ maior proliferação celular
→ invasão tecidual
→ resistência à apoptose
→ manutenção das lesões
Metabolismo lipídico
Observou-se:
- aumento de esfingolipídios
- aumento de ceramidas glicolisadas
- aumento de esfingosina-1-fosfato (S1P)
- alterações do colesterol intracelular
Consequências:
→ angiogênese
→ fibrose
→ neuroinflamação
→ dor crônica
→ perpetuação da doença
Metabolismo dos aminoácidos
Particular destaque para:
Triptofano
Ativação excessiva da via:
Triptofano → Quinurenina
mediada por:
- IDO1
- TDO
Consequências:
→ supressão imunológica
→ aumento de Treg
→ redução da atividade de células NK
→ escape imunológico das lesões
Glutamina
Aumento da glutaminólise para suprir:
- ATP
- síntese de nucleotídeos
- produção de glutationa
favorecendo crescimento e sobrevivência das lesões.

3. Mecanismos moleculares envolvidos
O artigo descreve uma rede integrada de sinalização metabólica.
HIF-1α
Principal regulador da adaptação à hipóxia.
Estimula:
- glicólise
- produção de lactato
- angiogênese
PI3K / AKT / mTOR
Promove:
- crescimento celular
- sobrevivência celular
- metabolismo energético
Sua ativação sustenta a progressão das lesões.
c-MYC
Amplifica simultaneamente:
- glicólise
- metabolismo lipídico
- metabolismo da glutamina
Atuando como maestro da reprogramação metabólica.
Lactato: o novo protagonista
Talvez o achado mais interessante do artigo.
O lactato não atua apenas como produto final da glicólise.
Ele funciona como molécula sinalizadora capaz de:
✔ promover lactilação de histonas
✔ alterar expressão gênica
✔ induzir polarização de macrófagos M2
✔ aumentar tolerância imunológica
✔ estimular angiogênese
✔ favorecer fibrose
O lactato passa a ser compreendido como um regulador ativo da progressão da endometriose.
4. Análise Comentário Clínico da Dra. Graciela
Este trabalho reforça um conceito cada vez mais evidente na prática clínica:
A endometriose é uma doença metabólica, imunológica, inflamatória e hormonal ao mesmo tempo.
Durante muitos anos focamos apenas no bloqueio estrogênico.
Hoje compreendemos que a persistência da doença depende de uma rede muito mais complexa envolvendo:
- metabolismo energético
- sistema imune
- microbiota
- estresse oxidativo
- ambiente folicular
O aspecto mais impactante do artigo é mostrar que o lactato pode funcionar como um verdadeiro “combustível biológico” da doença.
Isso ajuda a explicar por que algumas pacientes permanecem sintomáticas mesmo após tratamentos hormonais adequados.
Também amplia nossa visão sobre possíveis estratégias futuras envolvendo:
- modulação metabólica
- redução do estresse oxidativo
- suporte mitocondrial
- intervenções anti-inflamatórias de precisão
5. Reflexão para o leitor
Se a célula endometriótica sobrevive porque aprende a utilizar melhor glicose, lipídios e aminoácidos, até que ponto o futuro do tratamento da endometriose estará mais relacionado à correção metabólica do que ao bloqueio hormonal isolado?
6. Referência Completa
Guo C, Na X, Guo Z, Jiao J, Yang M, Liang J, Dai W, Na Z, Jiang Z, Li Y, Li D.
Metabolic Reprogramming in Endometriosis: Mechanisms and Therapeutic Prospects.
Journal of Advanced Research. 2026.
DOI: 10.1016/j.jare.2026.04.069
Neri, L.C.L.; Quintiero, F.; Fiorini, S.; Guglielmetti, M.; Ferraro, O.E.; Tagliabue, A.; Gardella, B.; Ferraris, C. Diet and Endometriosis: An Umbrella Review. Foods 2025, 14, 2087. 10.1016/j.jare.2026.04.069
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