Endo

Artigo científico Comentado

Microbiota e Endometriose: O Eixo Inflamatório

Dra. Graciela Morgado CRM/SP 122.379 | RQE 560631 | RQE 56063

Artigo original:

Microbiota insights in endometriosis

Autores e referência: Guillaume Parpex, Carole Nicco, Benoît Chassaing, Pietro Santulli, Sandrine Chouzenoux, entre outros.
Ano: 2025
DOI: https://doi.org/10.1186/s40168-025-02243-2

Tema clínico principal: Papel da microbiota intestinal e genital na fisiopatologia da endometriose e possíveis alvos terapêuticos.
Comentado por: Dra. Graciela Morgado
CRM/SP 122.379 | RQE 540631 | RQE 540632

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1. Resumo Científico Objetivo

O artigo explora as interações entre microbiota e endometriose, incluindo impactos na inflamação, imunidade e neurogênese. São discutidas evidências de que alterações microbianas intestinais e genitais podem contribuir para o desenvolvimento, manutenção e sintomatologia da doença.

2. Fisiopatologia detalhada

A endometriose é uma condição estrogênio-dependente, crônica e inflamatória. Os mecanismos fisiopatológicos tradicionais incluem:

  • Evidências crescentes apontam para a endometriose como uma doença sistêmica, com comorbidades autoimunes, cardiovasculares e gastrointestinais.
  • Menstruação retrógrada com falha na depuração de células endometriais pelo sistema imune;
  • Microambiente peritoneal alterado, com aumento de macrófagos, citocinas pró-inflamatórias (IL-1β, TNF-α), e resposta angiogênica exacerbada;
  • Resistência à progesterona e hiperestrogenismo local, que favorecem a sobrevivência e proliferação de lesões;
  • Neurogênese aberrante com sensibilização periférica e central da dor;
  • Disfunção imunológica com desequilíbrio entre células Th17 e Treg;

3. Mecanismos moleculares envolvidos

Eixo Microbiota–Inflamação–Hormônio:

  • A microbiota intestinal influencia a imunidade inata e adaptativa via produção de ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), como butirato e ácido linolênico, capazes de modular vias pró e anti-inflamatórias (ex: NF-kB, NLRP3, MAPK, mTOR).
  • Diminuição do butirato fecal, um SCFA anti-inflamatório, foi associada ao crescimento de lesões endometrióticas. Suplementação com butirato reduziu inflamação e lesões em modelos murinos.
  • Alterações da microbiota promovem a polarização de macrófagos para o fenótipo M2, favorecendo angiogênese e progressão da doença. Já a ativação por LPS (endotoxina bacteriana) via TLR4 induz expressão de IL-6 e TNF-α.
  • Há aumento de espécies bacterianas como Escherichia coli, Gardnerella, Streptococcus, Atopobium, enquanto há redução de Lactobacillus spp. no microbioma vaginal e endometrial de pacientes com endometriose avançada.
  • O conceito de estroboloma intestinal é explorado: conjunto de genes bacterianos com atividade β-glucuronidase, capazes de reativar estrógenos conjugados, aumentando a exposição estrogênica local e sistêmica.

4. Análise Comentário Clínico da Dra. Graciela

Este artigo amplia a visão tradicional da endometriose, trazendo à tona a complexa interação entre microbiota, imunidade e hormônios. A valorização do trato gastrointestinal, inclusive na ausência de lesões visíveis, e a atenção à microbiota genital como moduladora da inflamação e resposta imune são fundamentais para uma abordagem integrativa e de precisão. Além disso, reforça a necessidade de considerar intervenções dietéticas, uso racional de probióticos e acompanhamento personalizado como estratégias coadjuvantes no manejo clínico.

5. Reflexão para o leitor

Você já avaliou a microbiota intestinal e vaginal como fator relevante no manejo de pacientes com endometriose? Em sua experiência clínica, observa melhora com intervenções não hormonais como dietas ou probióticos?

6.  Intervenções Integrativas Complementares

  • Probióticos com Lactobacillus spp. como moduladores da imunidade local e barreira epitelial;
  • Suplementação com butirato ou ácido linolênico com ação anti-inflamatória;
  • Modulação dietética (low-FODMAP) como estratégia de controle sintomático gastrointestinal.

7. Referência Completa

Parpex G. et al. Microbiota insights in endometriosis. Microbiome. 2025;13:251. https://doi.org/10.1186/s40168-025-02243-2


Neri, L.C.L.; Quintiero, F.; Fiorini, S.; Guglielmetti, M.; Ferraro, O.E.; Tagliabue, A.; Gardella, B.; Ferraris, C. Diet and Endometriosis: An Umbrella Review. Foods 2025, 14, 2087. https://doi.org/10.3390/foods14122087

Este material faz parte do movimento ENDOctors – The Meetings, e a troca entre colegas é parte essencial da nossa evolução como médicos. Se quiser compartilhar sua experiência, uma dúvida ou ponto de vista sobre este tema, envie sua mensagem no grupo — será muito bem-vinda!

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Quem está por trás do ENDOctors?

A Dra. Graciela Morgado (CRM/SP 122.379) é ginecologista com ampla experiência em Endometriose, Reprodução Humana e Cirurgia Ginecológica Minimamente Invasiva.

  • Fundadora da Clínica EndoMater, referência em saúde integrativa da mulher;
  • Idealizadora do EndoExperience, um projeto de educação científica voltado à conscientização e atualização sobre endometriose; 
  • Head de cursos digitais para o público leigo, como Abordagem Funcional Integrativa da Endometriose e Adenomiose e Sexo com Prazer, que unem ciência, empoderamento feminino e saúde sexual;
  • Especialista em Ginecologia e Obstetrícia RQE 540630;
  • Especialista em Endoscopia Ginecológica RQE 540631;
  • Especialista em Reprodução Humana RQE 540632;
  • Pós-graduação em Endometriose e Cirurgia Minimamente Invasiva pelo Hospital Sírio-Libanês;
  • MBA em Gestão de Clínica Médica pela FGV.

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