Endo

Artigo científico Comentado

Endometriose Após a Menopausa

Dra. Graciela Morgado CRM/SP 122.379 | RQE 560631 | RQE 56063

Artigo original:

Endometriosis and menopausal health: An EMAS clinical guide

Autores e referência: C. Tamer Erel, Meletios P. Nigdelis, Ipek Betul Ozcivit Erkan, Dimitrios G. Goulis, Peter Chedraui, entre outros.
Ano: 2025
DOI: https://doi.org/10.1016/j.maturitas.2025.108715

Tema clínico principal: Conduta clínica na mulher com histórico de endometriose durante e após a menopausa.

Comentado por: Dra. Graciela Morgado
CRM/SP 122.379 | RQE 540631 | RQE 540632

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1. Resumo Científico Objetivo

Este guia clínico da EMAS (European Menopause and Andropause Society) aborda a saúde da mulher com endometriose na transição e após a menopausa. Discute riscos relacionados à recidiva da doença, complicações como osteoporose e câncer, e estratégias para uso seguro da terapia hormonal.

2. Fisiopatologia detalhada

Embora a endometriose esteja mais associada ao período reprodutivo, cerca de 2,6% dos casos ocorrem após a menopausa. A fisiopatologia pós-menopausa envolve aspectos distintos da doença pré-menopausa:

  • Estrogênio endógeno e local: Mesmo sem produção ovariana significativa, a conversão periférica em tecido adiposo e a produção local de estrogênio nas lesões endometrióticas (via aromatase e 17β-HSD) permite a ativação e crescimento de focos residuais.
  • Surgimento de novo x persistência: Ainda é debatido se os casos pós-menopausa representam persistência de lesões antigas ou surgimento de novas lesões (de novo), provavelmente influenciados por uso de MHT, fatores imunológicos, ou predisposição genética.
  • Doença inflamatória sistêmica: Mulheres com histórico de endometriose têm risco aumentado para doenças cardiovasculares, autoimunes e osteoporose, evidenciando um componente inflamatório sistêmico persistente, mesmo após a menopausa.
  • Menopausa cirúrgica x espontânea: Mulheres submetidas a salpingo-ooforectomia bilateral por endometriose têm maior risco de menopausa precoce e de morbidades associadas (osteoporose, demência, mortalidade aumentada).

3. Mecanismos moleculares envolvidos

  • Produção autônoma de estradiol (E2) pelas lesões endometrióticas, mesmo com níveis séricos normais ou baixos. A ativação da enzima aromatase e proteínas como StAR (Steroidogenic Acute Regulatory Protein) contribuem para síntese local de estrogênio.
  • Terapia hormonal pós-menopausa (MHT) pode reativar lesões latentes, especialmente se for estrogênio isolado. Por isso, a orientação é uso contínuo combinado (estrogênio + progestagênio) mesmo em mulheres histerectomizadas.
  • Inflamação crônica persistente favorece risco de mutações, instabilidade genética e transformação maligna, particularmente em endometriomas persistentes.
  • Alterações epigenéticas e imunológicas também são implicadas, mas ainda carecem de dados específicos para esta população.

4. Análise Comentário Clínico da Dra. Graciela

Este artigo representa um divisor de águas no cuidado da mulher com endometriose além do climatério. Amplia o olhar para além do controle da dor e fertilidade, incluindo risco cardiovascular, oncológico e de saúde óssea. Destaco a importância da individualização terapêutica — avaliando risco x benefício do MHT, e sempre considerando alternativas não hormonais. Mulheres com histórico de endometriose merecem seguimento multidisciplinar mesmo após a menopausa.

5. Reflexão para o leitor

Você continua acompanhando suas pacientes com endometriose após a menopausa? Já refletiu sobre os riscos silenciosos como malignidade, doenças autoimunes ou cardiovasculares nesse grupo?

6. Aplicações Práticas

  • MHT (terapia hormonal na menopausa) deve ser combinada (estrogênio + progestágeno), mesmo após histerectomia, para evitar recidiva ou transformação maligna de focos endometrióticos.
  • Avaliar risco de osteoporose (em mulheres com histórico de múltiplas cirurgias ou uso de agonistas de GnRH), com monitoramento de densidade óssea.
  • Rastrear e monitorar risco de câncer de ovário, tireoide e mama, especialmente em casos de endometriomas persistentes ou novos após os 45 anos.
  • Considerar alternativas não hormonais para sintomas climatéricos (antagonistas de NK3, antidepressivos, fitoterápicos com cuidado) quando MHT for contraindicada.

7. Intervenções Integrativas Complementares

  • Fisioterapia pélvica para dor persistente e dispareunia.
  • Lubrificantes e hidratantes vaginais para GSM (síndrome geniturinária da menopausa).
  • CBT (Terapia Cognitivo-Comportamental) como estratégia adjuvante para dor crônica e transtornos do humor associados.
  • Dieta anti-inflamatória, suplementação com cálcio e vitamina D, e atividade física para proteção cardiovascular e óssea.

8. Referência Completa

Erel CT et al. Endometriosis and menopausal health: An EMAS clinical guide. Maturitas. 2025;202:108715. https://doi.org/10.1016/j.maturitas.2025.108715


Neri, L.C.L.; Quintiero, F.; Fiorini, S.; Guglielmetti, M.; Ferraro, O.E.; Tagliabue, A.; Gardella, B.; Ferraris, C. Diet and Endometriosis: An Umbrella Review. Foods 2025, 14, 2087. https://doi.org/10.3390/foods14122087

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Quem está por trás do ENDOctors?

A Dra. Graciela Morgado (CRM/SP 122.379) é ginecologista com ampla experiência em Endometriose, Reprodução Humana e Cirurgia Ginecológica Minimamente Invasiva.

  • Fundadora da Clínica EndoMater, referência em saúde integrativa da mulher;
  • Idealizadora do EndoExperience, um projeto de educação científica voltado à conscientização e atualização sobre endometriose; 
  • Head de cursos digitais para o público leigo, como Abordagem Funcional Integrativa da Endometriose e Adenomiose e Sexo com Prazer, que unem ciência, empoderamento feminino e saúde sexual;
  • Especialista em Ginecologia e Obstetrícia RQE 540630;
  • Especialista em Endoscopia Ginecológica RQE 540631;
  • Especialista em Reprodução Humana RQE 540632;
  • Pós-graduação em Endometriose e Cirurgia Minimamente Invasiva pelo Hospital Sírio-Libanês;
  • MBA em Gestão de Clínica Médica pela FGV.

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