Endo

Artigo científico Comentado

Associação entre dieta e risco/sintomas de endometriose

Dra. Graciela Morgado CRM/SP 122.379 | RQE 560631 | RQE 56063

Artigo original:

Diet and Endometriosis: An Umbrella Review

Autores e referência: Neri, L.C.L.; Quintiero, F.; Fiorini, S.; Guglielmetti, M.; Ferraro, O.E.; Tagliabue, A.; Gardella, B.; Ferraris, C. Foods 2025, 14, 2087
Ano: 2025
DOI: https://doi.org/10.3390/foods14122087

Tema clínico principal: Associação entre dieta e risco/sintomas de endometriose

Comentado por: Dra. Graciela Morgado
CRM/SP 122.379 | RQE 540631 | RQE 540632

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1. Resumo Científico Objetivo

Esta umbrella review investigou se estratégias dietéticas específicas são úteis na redução do risco ou sintomas da endometriose, analisando 10 revisões sistemáticas. A seguir, resumem-se os principais achados de cada uma:

  • Arab et al. (2022): Avaliou o impacto do consumo de laticínios, gorduras e carnes. Encontrou efeito protetor do consumo de laticínios (RR 0.90), enquanto a manteiga, ácidos graxos trans e carne vermelha aumentaram o risco de endometriose.
  • Chiaffarino et al. (2014): Investigou cafeína e café. Não encontrou associação significativa com o risco de endometriose, embora o risco relativo com cafeína tenha sido 1.26.
  • Hoorsan et al. (2017): Avaliou alimentos como vegetais, queijo e peixe. Vegetais apresentaram forte efeito protetor (OR 0.43), enquanto o consumo de peixe e queijo foi menos conclusivo.
  • Huijs et al. (2020): Analisou diversos nutrientes e suplementos antioxidantes. Apontou que intervenções nutricionais com propriedades anti-inflamatórias podem aliviar sintomas, especialmente dor.
  • Kechagias et al. (2021): Confirma o risco aumentado de endometriose com ingestão elevada de cafeína (>300 mg/dia), com RR 1.30.
  • Mardon et al. (2022): Examinou estratégias de autogerenciamento, como suplementos e dietas modificadas. Resultados não mostraram efeito significativo na redução dos sintomas.
  • Nirgianakis et al. (2022): Avaliou suplementos, dietas mediterrânea, sem glúten, low-FODMAP e baixo níquel. A maioria dos estudos relatou alívio da dor e melhora dos sintomas, destacando papel positivo das intervenções dietéticas.
  • Sukan et al. (2022): Investigou suplementação antioxidante. Constatou que antioxidantes podem reduzir a dor relacionada à endometriose.
  • Sverrisdóttir et al. (2022): Estudou dietas com foco anti-inflamatório e de exclusão. Mostrou melhora significativa na percepção da dor, com destaque para dietas sem glúten e low-FODMAP.
  • Xiangying Qi et al. (2021): Realizou meta-análise sobre laticínios. Identificou associação inversa significativa entre consumo de leite e queijo com o risco de endometriose, inclusive em relação à dose consumida.

Em conjunto, os resultados sugerem que o aumento do consumo de vegetais e laticínios pode ter efeito protetor, enquanto o consumo elevado de cafeína e manteiga parece aumentar o risco. A heterogeneidade dos estudos e a baixa qualidade geral das evidências destacam a necessidade de ensaios clínicos randomizados bem desenhados.

2. Análise Comentário Clínico da Dra. Graciela

É fundamental que o manejo dietético da endometriose seja progressivo, individualizado e sustentado. Uma proposta prática e possível seria iniciar com uma dieta de exclusão como a Low-FODMAP (desde que haja indicação clínica clara), seguida de uma dieta sem glúten, e, posteriormente, a incorporação da dieta mediterrânea como base de manutenção. Essa abordagem respeita o ciclo sintomático das pacientes e favorece melhor adesão.

Além disso, estratégias alimentares cíclicas e modificáveis devem ser integradas à prática clínica em conjunto com intervenções comportamentais, manejo da dor e orientação multidisciplinar. Ressalta-se a necessidade de evitar dietas restritivas em excesso, pois restrições prolongadas e severas raramente são sustentáveis e podem levar ao abandono do tratamento. O bom senso clínico e a escuta ativa da paciente são essenciais para a condução de um plano alimentar eficiente e realista.


Reflexão para o leitor: Como os hábitos alimentares de suas pacientes com endometriose estão organizados? Há espaço para intervenções nutricionais baseadas em evidências?


📎 Referência Completa Neri, L.C.L.; Quintiero, F.; Fiorini, S.; Guglielmetti, M.; Ferraro, O.E.; Tagliabue, A.; Gardella, B.; Ferraris, C. Diet and Endometriosis: An Umbrella Review. Foods 2025, 14, 2087. https://doi.org/10.3390/foods14122087

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Quem está por trás do ENDOctors?

A Dra. Graciela Morgado (CRM/SP 122.379) é ginecologista com ampla experiência em Endometriose, Reprodução Humana e Cirurgia Ginecológica Minimamente Invasiva.

  • Fundadora da Clínica EndoMater, referência em saúde integrativa da mulher;
  • Idealizadora do EndoExperience, um projeto de educação científica voltado à conscientização e atualização sobre endometriose; 
  • Head de cursos digitais para o público leigo, como Abordagem Funcional Integrativa da Endometriose e Adenomiose e Sexo com Prazer, que unem ciência, empoderamento feminino e saúde sexual;
  • Especialista em Ginecologia e Obstetrícia RQE 540630;
  • Especialista em Endoscopia Ginecológica RQE 540631;
  • Especialista em Reprodução Humana RQE 540632;
  • Pós-graduação em Endometriose e Cirurgia Minimamente Invasiva pelo Hospital Sírio-Libanês;
  • MBA em Gestão de Clínica Médica pela FGV.

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